segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O fornecedor de...

Seis horas da tarde... enfim chegou a hora e receber a mercadoria. Minha pulsação acelera quando vejo a pessoa encarregada de entregar o bagulho. Tô tenso, suando frio. Ainda bem que estou de jaqueta, assim não dá para notar que minha camiseta está molhada no sovaco.

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Fazem alguns dias que espero por esse momento. Minhas contas dependem disso. Isso não é algo que eu me orgulhe de fazer... mas que se foda eu também não sou 100% anjo. Eu preciso desse negócio para passar adiante e ganhar uma grana, assim posso pagar o que eu devo. Eu não uso o troço. Só repasso. Quem usa são outras pessoas.

Recebi a mercadoria. Agora o próximo passo é repassar adiante e pegar a grana. Hoje é segunda. To cabreiro. Algo me diz que hoje não é um bom dia para isso. Espero mais uns minutos... enrolo daqui, dali indeciso, até que chego à conclusão de que se não resolver a parada hoje, amanhã vou estar na mesma situação e com um dia a menos para o prazo de meus credores. E eles não dão mole. Se atrasar o pagamento transformam sua vida num inferno. Malditos estelionatários oficiais.

É hoje que a coisa rola! Antes de sair traço o trajeto mentalmente. Droga tenho equipamento extra. Mais um capacete e uma bolsa com roupa de chuva. Não dá para deixar a moto na rua e sair com toda essa tralha a tiracolo para fazer a muamba. Mas eu vou precisar disso amanha cedo antes de ir trabalhar. Merd...

Resolvo deixar a moto num estacionamento a 4 quadras do lugar, junto com os dois capacetes. Levei a bolsa comigo caso haja problemas. O lugar de troca da mercadoria é movimentado, centro da cidade. Pensei em ir direto ao ponto do comprador da ultima vez mas antes de chegar lá vejo de longe um elemento com cara de quem estava a fim do bagulho, parado numa esquina. Me aproximo lentamente. Eu quero resolver isso o quanto antes e cair fora com a grana. Tem muita gente em volta.

Chego no sujeito e pergunto se ele está comprando. Ele pergunta o quanto eu tenho. Digo que tenho 100. Ele dá o preço. Eu aceito e retiro a mercadoria do bolso. Dai em vez do sujeito sacar a grana e me pagar ele pega o celular e liga para alguém. Eu estranho a situação e coloco a mercadoria embaixo da jaqueta, no sovaco molhado e fico olhando em volta.

Putz me ferrei, pensei eu.

Ele enrola... diz que o celular não tá dando linha. Mas que não vai demorar para o cara da grana chegar.

Enquanto isso percebo rostos me olhando... até parece que eles me conhecem e até parece que eles estão denunciando minha atitude.

Mas que merda...
penso eu, 

tenho que sair daqui... isso tá muito estranho. 

Depois de olhar em volta umas duas vezes pergunto ao sujeito se ele ta ligando para o cara da próxima esquina e que... beleza... eu vou até lá. Ele diz ao celular: 

Tem fornecedor na esquina da Sete com Osório... e ele tem 100.

Daí o sujeito olha na esquina e diz que o comprador já está vindo. Ele pede para conferir a mercadoria. Tiro a mesma do sovaco suado e ele conta. Em seguida chega outro sujeito.

Dá R$ 180!

diz o primeiro. O outro cara verifica a mercadoria. E me entrega a grana. E eu saio de cabeça baixa me achando um baita safado como os que traficam drogas.
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Na época em que o vale transporte foi criado... até poderia ter por objetivo apenas beneficiar as empresas de ônibus. Mas hoje a coisa ta um pouco mais diferente. Então.. que tal parar de discriminar quem vende vale transporte?

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